O Diário de Adão e Eva

O Diário de Adão e Eva é uma adaptação para teatro de três narrativas curtas de Mark Twain: Eve’s Diary, Adam’s Soliloquy e Extracts From Adam’s Diary. Em comum, as obras têm o tema: a criação das figuras de Adão e Eva, a sua expulsão do paraíso e a consequente vivência num mundo fora do Éden; mas são meras desculpas para analisar com humor e ironia as relações entre homens e mulheres através dos tempos.

Adão e Eva aparecem como figuras simbólicas do masculino e do feminino, exércitos de uma guerra de sexos e de uma incompreensão mútua que, no entanto, têm no amor uma correspondência inevitável.

Escritos no início do século XX, numa altura em que o teatro americano era pouco mais que inexistente, o que mais espanta nestes contos é a sua teatralidade.  Se Mark Twain não existe enquanto dramaturgo, isso deve-se a conjunturas históricas e culturais. A leitura das obras em questão é prova disso mesmo, principalmente na análise da sua linguagem, que espelha um confronto das perspectivas das duas personagens em relação ao outro através delas próprias: Adão e Eva confrontam-se numa sucessão de “monólogos” dirigidos para o leitor. Ora, o que queremos fazer no nosso espectáculo é transferir essa relação para o espectador, colocando as duas personagens em confronto presencial uma com a outra tendo o público como interlocutor.

Mark Twain, sobretudo conhecido hoje pelos romances The Adventures of Tom Swayer e Adventures of Huckleberry Finn, é considerado um dos maiores escritores norte-americanos, quase fundador de uma literatura nacional. O que mais nos importa não é a sua genialidade nem a sua mestria, muito menos a sua distância geográfica. Acreditamos que este é um autor universal, tão americano como europeu, tão actual como intemporal.  É por isso mesmo que o O Diário de Adão e Eva pretende ser um patchwork cronológico, onde os anacronismos se repetem e o que é posto em evidência é a verdade das palavras na boca dos actores.

Dizia George Steiner em No Castelo do Barba Azul que todas as sociedades têm dentro de si um mito da queda. Algures lá atrás as coisas foram melhores, correram de outra forma, e depois transformaram-se em qualquer coisa de negativo e inferior: o hoje é sempre pior do que o ontem. Mas  tudo isso, obviamente, é uma ilusão, o Homem de  O Diário de Adão e Eva agora é igual ao Homem de há uma, duas ou mais gerações atrás. Adão e Eva são os homens e as mulheres de hoje, de há cem anos e daqui a um milénio: não são melhores nem  piores porque os homens e as mulheres continuarão sempre a ser homens e mulheres.

Numa altura em que o teatro passa por uma fase difícil, em que a falta de apoios e subsídios pode levar a uma redução drástica da produção artística, principalmente dentro dos criadores mais jovens, não queremos cruzar os braços em desânimo.  O silêncio não nos serve, e parece-nos que a melhor maneira de lutar é a apresentação de espectáculos de qualidade que cheguem ao maior número de espectadores possível. Cremos que O Diário de Adão e Eva será um exemplo disso mesmo.

Miguel Graça

Nasceu em Lisboa em 1980. Na Universidade Nova de Lisboa licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas e concluiu uma pós-graduação em Tradução.
Em 2004 integrou o corpo docente da Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde se mantém até hoje leccionando a cadeira de Dramaturgia.

Desde de 2007 que colabora com Carlos Avilez no Teatro Experimental de Cascais.
Destacam-se dos seus últimos trabalhos, a tradução e dramaturgia de Danny e o Profundo Mar Azul de John Patrick Shanley, A Nossa Cidade de Thornton Wilder, Bruxas de Salem de Arthur Miller e Roberto Zucco de Bernard-Marie Koltès, a dramaturgia de Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos de Tom Stoppard e O Comboio da Madrugada de Tennessee Williams, e as versões cénicas e dramaturgia de O Inferno de Bernardo Santareno e Woyzeck de Georg Büchner.

Foram levadas à cena as suas peças Grécia (encenação de Renato Godinho), Fedra (encenação de Maria Camões) e Répteis, que também encenou.

Joana De Verona

Nasceu no Brasil em 1989. Estudou teatro no Rio de Janeiro entre 2000 e 2003. Em Lisboa, entre 2004 e 2007, frequentou o curso de Teatro do Chapitô e concluiu em 2011 a licenciatura em Interpretação na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Trabalhou com os encenadores: Gonçalo Amorim (O Jogador de Fiódor Dostoiévsky e Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele de Rui Pina Coelho) Bernard Sobel (Santa Joana dos Matadouros de Bertolt Brecht), Carlos Avilez (D. Carlos de Teixeira de Pascoaes), Monica Calle (Esta Noite Improvisa-se de Luigi Pirandello e O Inferno de August Strindberg), Marco Martins (Music Around Circles) e Luís Miguel Cintra (A Cacatua Verde de Arthur Schnitzler).

Em cinema, trabalhou com João Botelho (A Corte do Norte), Marco Martins (Como Desenhar um Círculo Perfeito), Raúl Ruiz (Mistérios de Lisboa), Valéria Sarmiento (As Linhas de Wellington), Solveig Nordlund (A Morte de Carlos Gardel), Catarina Ruivo (Em Segunda Mão), João Salaviza (Rafa), entre outros.

Em 2010 vence o Prémio Jovem Actriz no Estoril Film Festival com o filme Mistérios de Lisboa.

Em 2011 é nomeada para os Globos de Ouro na categoria de Melhor Actriz de Cinema, assim como para o festival de Cinema em Língua Portuguesa CINEPORT, Brasil, com o filme Como Desenhar Um Círculo Perfeito.

Pedro Caeiro

Nasceu em Oeiras em 1985. Estreia-se em 2003 no S. Luiz com a peça Caixa de Sombras de Michael Cristofer, onde também veio a participar em Romeu e Julieta, com encenação de John Retallack.

Em 2005 concluiu o curso de Interpretação da Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde foi aluno de Carlos Avilez, com quem trabalha em vários espectáculos no TEC, como Inês de Portugal de Alejandro Casona e O Comboio da Madrugada de Tennessee Williams, com o qual recebeu o Prémio Bernardo Santareno de Actor Revelação 2011.

Participou em Répteis de Miguel Graça e desde 2007 que colabora regularmente com o Teatro do Vestido, destacando-se os seus trabalhos em Fora de Casa por Agora e Nómadas.

24 de Agosto, 22h
Igreja de São Vicente